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aprender em casa através do trabalho por projetos

Com a suspensão das atividades letivas presenciais, têm sido várias as respostas das instituições no sentido de garantir a progressão do ano letivo. Aulas online, utilização de plataformas digitais ou o envio eletrónico de propostas de atividades são algumas das estratégias utilizadas pelos professores para permitir a continuidade do trabalho a partir de casa.

É de prever que essas estratégias reflitam: i) por um lado, o trabalho que estava a ser realizado no tempo letivo regular; e ii) simultaneamente, a familiaridade dos professores com estas plataformas virtuais. Com efeito, o trabalho de muitas crianças em idades de 1.º e 2.º Ciclos do Ensino Básico acaba por se fundamentar na realização de exercícios. Embora estes desempenhem um papel importante no treino e consolidação de conteúdos, não são suficientes para motivar aprendizagens significativas.

Ainda assim, as crianças com acesso a um computador e internet continuam a ter condições para aprender de forma ativa, autónoma e interdisciplinar. Uma das formas de o fazer, em casa ou na escola, é através do trabalho por projetos.

Por que devem os professores promover esta forma de trabalho? E como podem orientar os seus alunos à distância? Que papel podem os pais assumir nos projetos dos seus filhos?

Por que e como trabalhamos por projetos?

Vários autores falam sobre como desenvolver projetos e a sua importância no percurso escolar. Aqui, faz-se um enquadramento breve e uma descrição sintetizada dos processos inerentes ao trabalho por projeto, focando o que é essencial para a aplicação destas práticas no ensino-aprendizagem à distância.  No final da página, está um conjunto de sugestões bibliográficas do centro de recursos do Movimento da Escola Moderna, em que o tema é realmente aprofundado e são mostradas evidências dos instrumentos que a seguir se descrevem.

De acordo com Perrenoud (2001), um projeto distingue-se do mero exercício escolar porque:

  • leva o aluno a confrontar-se com “verdadeiros problemas”, que deve superar para atingir os seus fins. Aproxima o trabalho escolar da vida em sociedade;
  • surge dos seus interesses, questões e inquietações sobre o mundo que o rodeia. A vontade de descobrir novos saberes motiva a aprendizagem;
  • prevê tempo para a análise das tarefas executadas, êxitos e insucessos ao longo do processo, pelo próprio aluno e por todos os intervenientes. A avaliação é feita de forma formativa;
  • desenvolve a autonomia e a capacidade para fazer escolhas.

Ora, o Decreto-Lei 55/2018, que estabelece o currículo dos ensinos básico e secundário e os princípios orientadores da avaliação das aprendizagens, refere ser parte do papel da escola “desenvolver nos alunos competências que lhes permitam questionar os saberes estabelecidos, integrar conhecimentos emergentes, comunicar eficientemente e resolver problemas complexos”. Como vimos anteriormente, o trabalho por projetos é eficiente no desenvolvimento dessas competências.

É consensual que o trabalho por projeto decorre ao longo de três fases fundamentais, passíveis de serem subdivididas: planeamento, desenvolvimento e avaliação. Neste enquadramento, descrevem-se brevemente essas fases de acordo com as ideias de Correia (2012), Morais, Pacheco e Barbosa (2019) e Liberal (2019).

Planeamento

Em primeiro lugar, há que definir o tema. Existem vários tipos de projetos, que dependem essencialmente da forma como estes nascem ou da sua finalidade. Tendo em conta que vamos estar a trabalhar em casa, será mais provável que surjam projetos de investigação, cuja natureza é o desejo de saber. Estes servem para dar resposta a questões ou investigar sobre um tema.

Definido aquilo que se quer saber, importa registar as questões, hipóteses e formas de organização num plano de trabalho. Esse plano será um instrumento regulador e orientador para os alunos e o professor durante todo o percurso. Nele, podem constar:

  • o tema de estudo;
  • conhecimentos prévios;
  • perguntas a responder
  • recursos e instrumentos de pesquisa
  • produto final a realizar;
  • materiais necessários;
  • conteúdos do currículo que podem ser integrados;
  • avaliação (por sessão de trabalho ou por fase).

Desenvolvimento

trabalho por projetos

Esta é a fase de execução do trabalho, em que se pesquisa, regista, organiza e trata a informação recolhida, refletindo-a produto final. Esta etapa deve ser conduzida por instrumentos produzidos pelo professor, que facilitem a execução desta etapa. Por exemplo, podem ser apresentados: guiões de entrevista; registos de análise da informação, onde o aluno registe a informação recolhida e o que entendeu sobre o que leu; tabelas de registo de referências bibliográficas; entre outros.

É também nesta etapa que habitualmente se prepara a comunicação do projeto. Esta fase está concluída quando o produto final satisfaz a intenção inicial.

Divulgação e avaliação

Na última fase, é realizada a comunicação e a avaliação final do projeto. Em sala de aula, comunica-se para se partilhar o conhecimento com o grupo e criar espaço para uma reflexão conjunta. A comunicação pode ser realizada em qualquer suporte disponível: cartazes, slides, panfletos, dramatizações, etc..

A avaliação é formadora e reguladora, assumindo sempre a participação dos alunos. Realiza-se, por isso, em todas as fases do projeto.

Aos professores: como promover o desenvolvimento de projetos no ensino à distância?

Para um professor que nunca realizou projetos em sala de aula, esta proposta será um grande desafio, tanto para si como para os seus alunos. O trabalho pode, por isso, ser mais ou menos orientado ou delimitado, em diferentes partes do processo (seleção do(s) tema(s), fontes de pesquisa utilizadas, produtos finais a apresentar), embora a flexibilidade que se está aqui a sugerir não seja consensual entre os diferentes autores que se debruçam sobre o tema.

O que se segue são algumas sugestões que visam adaptar a forma de trabalho ao contexto social/escolar que estamos a viver atualmente. Cabe a cada professor decidir quais destas propostas fazem sentido, tendo em conta a faixa etária, características e necessidades dos seus alunos, os recursos que têm ao seu dispor e a própria disponibilidade das famílias.

 Antes de começar

 Antes de iniciar o projeto, pode ser útil:

  1. Escrever um pequeno texto ou realizar uma videochamada, explicando aos alunos e aos pais o que é esperado desta tarefa;
  2. Criar um guião, que oriente os alunos ao longo das diferentes fases do trabalho;
  3. Preparar a utilização de plataformas, como o OneNote ou o Google Classroom. Os instrumentos reguladores que surgem ao longo do projeto devem ser vistos e revistos pelo professor à medida que sofrem adendas ou alterações, para que este consiga orientar os seus alunos na tomada de decisões, corrigir produções ou tarefas e sugerir recursos ou materiais. O uso dessas plataformas pode facilitar a comunicação e o trabalho entre professore e alunos.

Seleção do tema

Vimos que o que se preconiza é que o tema do projeto surja dos interesses, questões ou necessidades do grupo. Para crianças que não estejam já familiarizadas esta forma de trabalho, este processo pode ser abstrato. Por essa razão, apresentam-se algumas opções:

  1. Pedir aos alunos que coloquem questões ou proponham temas do seu interesse;
  2. Dar exemplos de questões e deixar que os alunos escolham livremente ou proponham outras do seu interesse;
  3. Escolher uma temática e perguntar aos alunos que questões têm sobre a mesma;
  4. Definir temas e propor aos alunos que escolham um sobre o qual gostariam investigar.

À posteriori, o professor pode criar um documento que contenha o que vai ser investigado por cada aluno e partilhá-lo com o grupo.

É importante ter em conta que se a criança tiver oportunidade de escolher de acordo com os seus interesses, maior vai ser a sua motivação e produtividade e mais significativas serão as aprendizagens realizadas.

Planeamento

Como referido anteriormente, no planeamento, as crianças refletem sobre o que já sabem, o que querem saber e como vão organizar a informação recolhida, registando as suas ideias num plano previamente preparado.

 O plano de projeto pode ser mais ou menos diretivo, de acordo com as intenções do professor. Pode já integrar:

  1. Sugestões de tópicos a investigar;
  2. Fontes de pesquisa;
  3. Propostas de produtos finais;
  4. Número limitado de questões a responder ou tópicos a desenvolver, controlando mais facilmente o tempo de execução do projeto.

Pesquisa

Na fase de pesquisa, o professor pode:

  1. Elaborar uma lista de fontes de pesquisa fidedignas que orientem o aluno durante a pesquisa, tais como sites de livros eletrónicos, de artigos (Visão Júnior), de vídeos ou documentários (RTP Ensina), visitas virtuais ou plataformas digitais como a Escola Virtual, adequados à faixa etária;
  2. Sugerir algumas fontes de informação que se enquadrem no tema de cada projeto;
  3. Construir instrumentos que facilitem o tratamento da informação, onde a criança pode registar a informação essencial sobre aquilo que leu, viu ou ouviu.

Execução

O professor pode dar sugestões sobre como organizar a informação no produto final, lembrando ou informando os alunos sobre as características próprias do formato escolhido.

Comunicação

As formas de comunicação vão depender dos projetos desenvolvidos, mas também dos instrumentos disponíveis.

  1. Os alunos podem partilhar os produtos elaborados por email, sejam eles em formato eletrónico ou fotografias das próprias produções.
  2. Também podem preparar e filmar uma curta comunicação oral.
  3. Pode ser ainda proposto aos alunos que comuniquem o seu projeto à sua família.

Avaliação

Tal como acontece em sala de aula, a avaliação está constantemente presente nas diferentes fases do projeto. No entanto, perde-se a oportunidade de reflexão e discussão em grupo, que constitui uma parte consideravelmente importante de todo o processo.

Os projetos podem sempre ser retomados no regresso às atividades letivas presenciais, apresentados e explorados pelo grupo.

Aos pais: como podem ajudar os seus filhos a fazer um projeto?

Seja ou não proposta do professor, os pais podem envolver-se na realização de um projeto em casa com as suas crianças, de acordo com o tempo e recursos que têm à sua disponibilidade.

Como gerir o tempo?  

Não existe tempo limite para criar um projeto. Este termina quando o objetivo inicial dos seus intervenientes é cumprido, tenha sido esse descobrir ou produzir algo. Neste sentido, o tempo dedicado ao desenvolvimento do projeto pode ser previamente combinado, considerando a disponibilidade de cada família para orientar o seu educando. Nessa calendarização, podem existir momentos de trabalho autónomo, em que a criança avança com tarefas que consegue realizar sozinha, e momentos de trabalho orientado, com a colaboração dos pais.

Que tipo de apoio podem prestar aos seus filhos?

 A orientação que cada criança precisa vai depender da sua faixa etária e das suas próprias competências de leitura e escrita, pesquisa e tratamento da informação. Dito isto, a participação dos pais pode passar por ajudar a:

  • refletir sobre aquilo que a criança quer investigar;
  • selecionar fontes de pesquisa;
  • selecionar informação relevante para responder às perguntas do plano;
  •  rever a informação que foi escrita;
  •  organizar produto final.

Em conclusão

A metodologia de trabalho por projeto pode parecer intimidantes para alguns profissionais da educação e, para outros, absolutamente entusiasmante. Para os alunos, é uma ocasião única para liderar o caminho da sua aprendizagem; de decidir sobre o que querem aprender, o que vão criar e como, com a orientação do adulto. É difícil não se ficar surpreendido com a iniciativa, autonomia, criatividade e desenvoltura que as crianças mostram quando se lhes é dada a oportunidade de ter um papel realmente ativo.

Importa ainda clarificar que as sugestões expostas neste texto advém da minha própria experiência enquanto professora do 1.º e do 2.º Ciclos e foram contempladas com o objetivo de incentivar e ajudar: profissionais que não tenham experiência nesta forma de trabalho; e pais que desejem desafiar os seus filhos e motivar a sua sede de aprender.

 

Sugestões bibliográficas

Trabalho em projetos (Xarepe, 2001)

Como iniciei o trabalho de projectos com meninos de 1º ano. (Raminhos)

Como aprender através de projetos (Correia, 2012)

Referências bibliográficas

Correia, C. (2012). Aprender através de projetos. Escola Moderna, 43(5), 12-36.

Decreto-Lei nº 55/2018 de 6 de julho. Diário da República nº 129 – I Série. Ministério da Educação e da Ciência, Lisboa.

Morais, C., Pacheco, R. & Barbosa S. (2019). Projetos: construindo um percurso com sentido, Escola Moderna, 7(6), 16-25.

Liberal, J. (2019). Projetos: construir o conhecimento em democracia, Escola Moderna, 7(6), 59-66.

Perrenoud, P. (2001). Porquê construir competências a parti da escola? Cadernos do CRIAP, 28, 109-121

Professora do 1.º Ciclo do Ensino Básico e de Português e de História e Geografia de Portugal do 2.º Ciclo do Ensino Básico.
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