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gilles lipovetsky: o processo de socialização em tempos hipermodernos

Para a Sociologia, o conceito de identidade está intimamente ligado ao de individuo. Embora conceptualmente diferentes, a identidade é o que diferencia um individuo de outro, atribuindo-lhe dessa forma um carácter individual. Contudo, esse conceito tem vindo a sofrer algumas alterações, consoante o tempo e, no fundo, a abordagem teórica de que é alvo.

A modernidade apresenta-se como uma época de transição e transformação. Para Bauman, a liquidez dos laços sociais, das instituições sociais e do presente. Para Giddens, as ciências sociais, a cultura e a informação, aparelhos da própria modernidade, permitem que a própria se conheça, pondo constantemente em questão as práticas sociais, alterando as formas de socialização até aí conhecidas. O individuo reflexivo é fruto da modernidade que o obrigou a repensar os seus próprios destinos e deu-lhe capacidade para ser uno no meio de tantos e distinguir-se dos outros, criando a sua própria identidade.

Lipovetsky critica os excessos e os híperes modernos: a hipermodernidade é lugar do hipercapitalismo, uma ideia exacerbada de consumismo que, no entender do autor, atribui um carácter mercantil a todas as formas de cultura. Ao consumir, o individuo hipermoderno expressa uma mensagem à sociedade de que se quer distinguir, mas sem fugir ao grupo de pertença, ficando desorientado .

Afirmam-se, portanto, algumas questões, não com o intuito de serem respondidas, mas sim de forma a contribuir para a discussão sobre os efeitos das dinâmicas modernas no desenvolvimento do individuo enquanto reflexivo e, perdoe-se a redundância, individual. Se o indivíduo está inserido num sistema caracteristicamente influenciador da sua identidade, em virtude dos estímulos que lhe são apresentados, como pode ele emergir dessa corrente? Se são as instituições modernas a ditar a vida social, como pode o individuo, enquanto membro da sociedade, manifestar a sua identidade se ele próprio está dentro do sistema social? Para além disso, os indivíduos, com o mesmo grau de pertença à sociedade, são atingidos por estímulos idênticos. Se assim o é, como é que o individuo pode manifestar a sua própria identidade? A identidade é de grupo ou individual?

Lipovetsky tem razão quando apresenta a hipótese de uma reformulação do sistema de ensino para a criação de indivíduos conscientes de forma a se libertarem das amarras do sistema hiperconsumista.

De facto, a educação é a base dos princípios de socialização. Contudo, a escola será sempre uma instituição do próprio sistema, mesmo que se revitalizem princípios e métodos novos de ensino, mesmo que se trabalhe a relação professor-aluno, a escola é um caminho não só para a intelectualidade e curiosidade, mas sim para a introdução do individuo nas normas sociais já assentes de raiz. Existe um caminho pré-definido: qualquer aluno, numa determinada idade, deve aprender um conjunto de normas e conhecimentos, independentemente da sua individualidade; começa o percurso escolar numa determinada idade e deverá acabá-lo noutro.

O percurso escolar representa mais do que uma fase absorção de conhecimento, uma preparação para uma fase seguinte, até chegar à inserção no mercado de trabalho e, em última instância, no próprio sistema de consumo, processo legitimador da divisão do trabalho. Em todo este processo de inserção do individuo no sistema escolar, não existe uma verdadeira estimulação das suas capacidades individuais. Porém, é claro que este constrói, ao longo do tempo e a partir dos seus diversos pares sociais a sua própria individualidade e identidade, todavia é a partir de um processo de influência-integração que os grupos sociais se vão mantendo, legitimando, pois, o sistema vigente.

Importante para completar este raciocínio, Peter Berger e Thomas Luckmann em apresentam em 1996 a obra A Construção Social da Realidade – Um tratado sobre a sociologia do conhecimento. Nesta, desenvolvem a perspetiva do socioconstrutivismo: a sociedade é construída pelas experiências do indivíduo adquiridas a partir das relações que já viveu, isto é, o individuo perceciona a sociedade através da moldagem de significados subjetivos adquiridos ao longo da sua vida. Os autores definem que a organização social é chave para a manutenção do universo sensorial. Uma vez que o ser humano é produto da própria atividade humana, tudo o que é construído por ele é também modificado e transformado pelo próprio. A absorção da complexidade do real é subjetiva a cada um, todavia as definições são sempre encarnadas, ou seja, a organização social é um campo mais perene que as próprias experiências individuais. Só se pode contextualizar a ação individual a partir de uma conceptualização do real. Os indivíduos nascem em condições sociais e familiares que não são da sua escolha e que determinam os seus esquemas interpretativos do real (Berger e Luckmann, 2004:157).

O contexto familiar de socialização primária oferece uma primeira  grelha de interpretação do mundo, para lá do que sugere Lipovetsky com o sistema escolar, caracteristicamente socializador de segundo grau.

O declínio do sistema escolar que aborda Lipovetsky é um raciocínio válido para interpretar a questão do desenvolvimento da individualidade. Mas é no contexto de uma socialização primária, que o indivíduo adquire as primeiras componentes reflexivas e identitárias.

No fundo, esta é apenas uma contribuição para responder à questão de como é que um individuo socializado e educado num determinado sistema consegue afastar-se das raízes que o determinam. Se formos mais além no raciocínio, este próprio argumento pode ser facilmente contestável. Mesmo que seja na socialização primária que o individuo comece a desenvolver a sua própria identidade, ele é educado conforme os padrões sociais aceitáveis e conformes do sistema em que está inserido. Somente não é influenciado em primeira instância pelos estímulos de uma cultura mercantil, como refere Lipovetsky, e isso deve-se a fatores como, em tenra idade, o individuo não possui uma consciência consumista de diferenciação social, ele utiliza os mecanismos da sua própria personalidade para mostrar ao mundo a sua identidade.

Contudo, em contexto de socialização secundária e numa idade mais avançada, existe a necessidade de se integrar socialmente, num contexto fora do contexto familiar, e aí emergem os estímulos de consumo como diferenciação. Ora, se este processo de socialização for mais ou menos semelhante em todas as sociedades modernas, o sistema capitalista tem o futuro garantido, já que baseia a sua atividade na constante estimulação consumista. Apoia-se na ideia de que o individuo consome, não para satisfazer necessidades básicas, mas sim para se destacar socialmente e que é influenciado pelos seus pares a consumir de forma a se sentir integrado.

É claro que estes argumentos servem somente para demonstrar as vicissitudes do sistema hipercapitalista . O objetivo foi criticar a influência do sistema e não o indivíduo, aliás, não é toda a teoria que dá prevalência aos sistemas modernos como decisores autoritários da vida social. Existem teorias que relevam o valor do individuo enquanto um ser capaz de pensar a toxicidade dos tempos vigentes e escapar, de certa forma, à tal influência social. Na verdade, o próprio Lipovetsky, admite o processo de personalização como libertador, sendo o aparecimento de vários e novos movimentos alternativos exemplos de reflexividade. Giddens, por sua vez, também fala da capacidade do individuo-reflexivo, dotado de ferramentas capazes de promover o seu equilíbrio e integração numa sociedade em constante mutação.

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