fbpx

o cânone ocidental

O conceito de canône literário corresponde, segundo Sullá, a uma lista de obras consideradas valiosas e dignas de serem estudadas e preservadas e que vincam e fazem permanecer a identidade de uma nação ou de um povo. Ao seleccionarem-se essas obras, significa que outras tantas mais são deixadas de fora, interpretando-se assim que umas obras literárias são mais dignas que outras de ficarem para sempre na história da humanidade e que juntas perfazem um padrão estético que criteriza e valida o que é, ou passa a ser, uma obra canónica.

De acordo com Sullá, nessa escolha intervém uma minoria dirigente, cultural e política, podendo postular-se que a inevitabilidade da relação entre o canône e o poder, ideologicamente conservador.

Ora, existem dois polos opostos ideológicos entre os que defendem o cânone – é uma referência, o núcleo da cultura ocidental com que se identificam nações, tradições e indivíduos e uma outra facção, crítica, que define o canône como catalisadora do poder e ideologia dominantes.

Em O Canône Ocidenteal (1995), Harold Bloom ataca as linhas de pensamento críticas em relação ao canône. No seu entender, os críticos culturais da época eram influenciados por uma corrente neomarxista cujo objetivo seria fazer da literatura um veículo de propagação ideológica, reduzindo-a a uma caixa de ressonância da luta de classes.

Na verdade, Bloom apelidou estes críticos como A Escola do Ressentimento, um grupo com fins polémicos composto por feministas, afroamericanistas, marxistas, neohistoricistas e desconstrucionistas, ou seja, no seu entender, todos aqueles que compõe o núcleo da crítica cultural.

Bloom defende a leitura estética da literatura e rejeita a ideia de que as obras são documentos sociais, culturais e ideológicos. A luta de classes, género ou raça, para si, não têm lugar na literatura. Ao definir a literatura como um mecanismo de força contra o poder vigente, os críticos da Escola do Ressentimento esquecem outros factores externos que definem uma obra canónica.

Tal como na área da ciência, a evolução científica dá-se quando se opõe métodos, ideias e conceitos já debatidas e estudadas no passado, relacionando-as com novas questões e problemáticas num ciclo com várias fases, em que em cada uma delas chegam-se a novas conclusões, resultados e desafios.

Este paralelismo não é inocente. Também como na ciência, a literatura evolui por força de uma interação entre obras do passado e a sua capacidade de influenciar um autor cuja sua capacidade de interpretação é singular e o difere de tantos outros autores que se situem nos mesmos contextos temporais e artísticos.

Assim, Shakespeare não é só influenciado pelas forças britânicas vigentes do século XVI. Ele é também um produto da interpretação estilística das obras que teve contacto com, sendo também influenciado por elas.

A receção de um texto influencia de facto a configuração do cânone. De acordo com Hans Robert Jauss e a sua teoria da Estética da Receção, o ato interpretativo de um texto segue um horizonte de expetativas, isto é, uma característica de todas as situações de interpretação que funciona como um guia mental conceptual que está ligado à visão que cada indivíduo possui no contacto com a realidade em que está inserido e com a influência resultante da sua bagagem cultural. Desse contacto nascem crenças, princípios e sensibilidades que influenciam o ato interpretativo de um texto.

Se seguirmos a linha de argumentação da Escola do Ressentimento, Shakespeare teria sido somente um produto do tempo em que vivera. Logo, poder-se-ia afirmar que outros autores da mesma época de Shakespeare são canónicos, o que é falso. A diferença que faz de Shakespeare um autor canónico é, de acordo com Bloom, a sua interpretação estética literária, do poema pelo poema, e a capacidade que teve de influenciar outros autores como Goethe, Poe, Dostoyevski, Beckett e tantos outros mais.

Ainda, segundo Figueiredo (2009:42) que cita Fokkema (1998: 225-249), os autores canónicos possuem nas obras um diálogo sobre temáticas universais que sobrevivem à eternidade do tempo e são familiares a todas as culturas do globo. Temas como amor, a morte e relações familiares estão presentes em Camões, Pessoa, Cesário Verde (referindo aqui alguns canónicos portugueses):

«O tema tem também a função utilitária de conferir unidade à obra, constitui um elemento estruturante da mesma, mas não o podemos confundir com o conteúdo porque não coincide com aquilo que se pretende dizer, antes o modo como se diz. Ora o modo como se diz sofre mutações de época para época. É interessante verificar como a originalidade do escritor ou do poeta, aquilo que o torna único é também o que contribui para o eternizar, ou seja, a originalidade não é alheia à permanência dos temas. Apesar de as metáforas poderem mudar, os ecos intertextuais permanecem.» 

Sullá aborda o papel das instituições na seleção e definição das obras canónicas, tendo em conta o papel das escolas e universidades para tal.

No ensino em Portugal, de acordo com Balça e Costa (2017:214):

«(…) Um documento como um programa escolar, materializa sempre uma escolha, uma seleção e, naturalmente, uma restrição no plano do cânone literário, neste caso. Essa seleção não será nunca ideologicamente neutra, uma vez que tal se configura como uma impossibilidade.»

Lopes (1994:416) afirma que a escola e particularmente a universidade desenham um papel importante no regulamento do circuito literário em Portugal e na definição daquilo que deve ser preservado, classificado e hierarquizado numa história da literatura, competendo a entidades profissionais como os professores e os investigadores da língua e literatura essa tarefa.

De facto, o ensino possui também uma importância de relevo na seleção das obras. Ao establecer uma hierarquização das obras, classificando quais são aquelas que devem ser estudadas pelos alunos ao longo dos tempos, professores e investigadores subordinados a entidades governamentais, como por exemplo o Ministério da Educação, são um dos órgãos responsáveis pela institucionalização do cânone literário em Portugal.

O debate sobre a seleção e composição do canône literário é ainda hoje um assunto polémico e controverso.

De um lado, existe um largo de número de investigadores e críticos literários a favor da sua extinção, por considerar que a hierarquização das obras tem como consequência o esquecimento de outras, facto que não contribui para o desenvolvimento da literatura, criando para além disso, uma espécie de agenda literária que diz ao leitor o que é aceitável ler e ter contacto com.

No polo oposto, onde se encontra Harold Bloom com o seu Cânone Ocidental, como já fiz questão de apresentar, este defende a literatura como um produto artístico que deve ser avaliado e guiado pela estética literária, do poema pelo poema, e não pelo seu efeito político.

Ambos os argumentos são bastante válidos. De facto, o cânone constitui um género de um guia conceptual para o leitor, uma vez que eterniza as obras mais importantes que contribuiram de alguma forma para o avanço da espécie humana, ou pelo menos, que fez testemunhar a sua presença no Planeta.

No entanto, a criação de um canône literário parece retirar aos leitores a liberdade da autonomia de descobrir, pensar, refletir e interpretar obras que, mesmo não canónicas, são possíveis de ser apreciadas. Ao existir um degrau de excelência, os leitores são como que forçados a subirem-no, ganhando assim uma referência identitária, mas perdendo a sua liberdade enquanto decisores e influenciadores culturais.

Como este caminho começa a ser trilhado na escola com os programas que definem as obras a serem estudadas, o primeiro contacto que os estudantes têm com a literatura é sempre definido por uma minoria institucional que nem sempre tem em conta as necessidades e especificidades dos contextos em que os alunos se inserem.

Se as obras, literárias ou de outro tipo, são o reflexo dos contextos em que vivemos, seria de grande valor não restringir o campo de descoberta cultural, mas sim, expandi-lo e aproximar os leitores, jovens ou adultos, da obra, canónica ou não. A meu ver, ao existir como uma mapa conceptual, como um guia, como um museu onde estão os grandes da Literatura, o cânone sobrevive, mas nunca como uma classificação elitista que define, autoritariamente, o que deve ser lido, sob pena de criar uma cultura inadequada às sociedades e ao Homem.

 

Referências:

[1] SOUSA, Lourival (2017). A Escola do Ressentimento apud BLOOM, Harold. O cânone ocidental. Rio de Janeiro: Objetiva, 2010,  p. 14 e 15.

[2] Jauss, H.R (1993). A Literatura como Provocação. Vega, Lisboa.

[3] Figueiredo, M.L.G (2009). Os clássicos são imortais?. Tese de Mestrado, Faculdade de Psicologia, Lisboa.

[4] BALÇA, Ângela e COSTA, Paulo (2017). Leitura e educação literária: da viagem possível às restrições do mapa. Ensino Em Re-Vista | Uberlândia, MG | v.24 | n.1 | p.201-220

[5] LOPES, Silvina (1994). A legitimação em literatura. Cosmos, Lisboa.

Artigos criados 44

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.

Artigos relacionados

Digite acima o seu termo de pesquisa e prima Enter para pesquisar. Prima ESC para cancelar.

Voltar ao topo