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no castelo do barba azul, notas para uma redefinição de cultura

Em O Castelo do Barba Azul – Algumas notas para uma redefinição de cultura, George Steiner aborda a questão da caracterização da cultura contemporânea no período após as Grandes Guerras, trazendo novos significados, necessários para a (re)definição de um conceito em constante mutação.

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George Steiner 

O próprio título – O Castelo do Barba Azul – aponta-nos desde logo a uma metáfora baseada no conto tradicional com o mesmo nome que trata de um personagem de barbas azuis que vivia num castelo misterioso, para onde levava as mulheres com quem casava, acabando por aprisioná-las num quarto, deixando-as morrer. Será então necessário entrar no castelo para percebermos o seu interior; não basta admirar a sua figura desde o lado de onde os nossos próprios olhos não conseguem mais chegar?

No primeiro capítulo, denominado O Grande Tédio, Steiner afirma que, após os conflitos ideológicos da Revolução Francesa bem como o final do clima de guerra, instalou-se a paz e um clima de prosperidade, porém, ao mesmo tempo, criou-se toda uma inércia de movimento, fazendo com que a raiva, o ódio e o mau estar persistisse nas sociedades europeias e mais cedo ou mais tarde, todos esses sentimentos iriam implodir.

Todas as transformações sociais e tecnológicas que emergiram no período após a Revolução Francesa trouxeram um clima de esperança no futuro e uma melhoria na qualidade de vida dos europeus em geral. No entanto, após um período de grande efervescência e dinâmica, nasce a desmotivação, a inércia; a falta de algo por que lutar.

‘’Matámos deus’’ – exclamara Nietzsche, em Gaia Ciência (1882).

Esta frase dá conta do niilismo, apatia ou ‘’o grande tédio’’ em que a Europa estava mergulhada no período pós-Revolução Francesa e também Científica. Tal acontecimento fez com que a influência da religião na vida mundana fosse cada vez menor. Todos os rituais, crenças e mitos estariam a enfraquecer. O processo de laicização das sociedades acabou por trazer uma grande descrença às populações e as sociedades perderam a noção e sentido do bom/mau, belo/verdadeiro, criando um grande cataclismo. A existência de Deus criava um equilíbrio que sedimentava a saúde e coesão social.

No entendimento de Steiner, estaria criada a receita para um desastre prestes a implodir. As inovações tecnológicas levaram ao crescimento do sector industrial e da economia, fazendo com que a importância da mão-de-obra diminuísse aos olhos dos grandes senhores detentores dos meios de produção que tinham como grande objetivo em mente a maior produtividade possível a todo o custo. Tal problema ligado ao tédio durante estes anos de paz, constitui a conjuntura para, a partir daí, se preverem novos cataclismos.

No segundo capítulo, Uma Temporada no Inferno, Steiner aborda a questão do holocausto, afirmando que se fizeram poucas tentativas de relacionar o fenómeno barbárico do século XX a uma teoria geral da cultura.

De facto, o período de tédio que antevia uma nova vaga de conflitos à escala internacional foi estudado até à exaustão de forma a identificar as causas da desponta do fenómeno do holocausto. Tanto a sociologia, como a psicologia e a economia elaboraram estudos de comportamento de massas, da personalidade psicológica totalitária, relações de conflito entre classes, crises económicas, entre outros. Embora na opinião de Steiner, com resultados inconclusivos, uma vez que o autor parte da convicção de que «uma análise do ideal de cultura exige o entendimento mais pleno possível da fenomenologia do assassínio em massa.». Embora importantes, essas linhas de pensamento funcionam como um modelo de entendimento sociológico e histórico, ainda assim, no seu entendimento, o fenómeno carece de uma análise muito mais profunda.

Steiner aponta ainda na direção de T.S. Elliot, questionando-se de que forma é que em Towards the Definition of Culture, obra publicada pela primeira vez no ano de 1948 e escrita no auge dos acontecimentos mais devastadores a terem lugar no planeta, não faz qualquer referência a esses eventos, ainda para mais tratando-se de uma abordagem teórica ao conceito de cultura.

No entanto, o autor franco-americano valida a insistência e pertinência de Elliot em enquadrar o carácter religioso da civilização na conceção de cultura: «Parece-me indiscutível que o Holocausto deve ser enquadrado na estrutura da psicologia das religiões e que o entendimento dessa estrutura é vital para uma discussão sobre a cultura.».

Na sua ótica, a ideologia nazi representa um grupo extremista de sentimentos antissemitas, fenómeno que já existira na Europa, ainda que manifestado de forma diferente, afirmando que o holocausto não foi o resultado de uma patologia individual nem dinâmica característica de um Estado nacional: «não consideramos (…) algo verdadeiramente análogo a outros casos de massacre. Existem paralelos na técnica e na linguagem do ódio, mas não (…) ao nível da intenção filosófica.».

É a partir de uma abordagem dentro dos moldes da psicologia da religião e da teologia que Steiner tenta depreender as causas do holocausto após ter refutado as abordagens racionalistas que economistas, sociólogos e cientistas políticos outrora fizeram, apoiando-se em tradições seculares que tratavam o sistema financeiro como maioritariamente judeu ou que até defendiam que as motivações, racionais – segundo eles -, mesmo as assassinas, seriam a eliminação de uma minoria que ia contra o poder vigente.

Steiner não desconsidera todas essas teses, no entanto, para ele, o horror do holocausto nasce da histórica relação entre a religião, na medida em que a ‘’invenção’’ do monoteísmo exerce sobre o homem e os seus estímulos inconscientes.

Um deus intangível coloca o homem num estado de dúvida e incerteza. Como pode tocar em algo que não vê, como pode ele depositar a sua crença numa só identidade? No judaísmo, o deus não é representado, foge à imagética e iconográfica; é uma abstração invisível, imaterial. É uma força enorme, com tanto poder sobre a vida dos seus crentes que, porém, não se manifesta, não se vê. Tal vazio trás um sentido de perda, enquanto que a figura do deus cristão toma uma figura mais alcançável por força das suas dinâmicas representativas através da trindade e dos anjos.

Steiner crê que o Antigo Testamento é ‘’ um registo de motins, de espasmódicos, mas repetidos regressos aos velhos deuses, a quem a mão podia tocar e a imaginação abrigar’’. Já o cristianismo é constituído a partir de necessidades híbridas e flexíveis, abrangendo na sua génese práticas monoteístas e também politeístas com a representação material de Deus, Cristo e outras figuras santas.

Afirma Nietzsche, citado por Steiner, que é no politeísmo que há espaço para o florescimento da capacidade criativa do ser-humano, enquanto ‘’o mais monstruoso de todos os erros humanos’’ (p.49) é a doutrina monoteísta uma vez que o homem não pode ‘’jogar com outros deuses’’, isto é, a crença é ofuscada numa entidade e não no próprio sentido e essência da sua crença.

Depois de séculos de um ‘’ressentimento inconsciente’’ (p.51) contra o ideal monoteísta, a vingança da cultura ocidental traduziu-se na morte dos judeus, aqueles que teriam ‘’inventado Deus’’, embora legitimando a sua ausência e intangibilidade.  O Inferno torna-se assim realidade nos campos de concentração – a grande vingança da cultura ocidental em relação à ideia judaica de um deus-todo-poderoso.

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