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the 1975: a modernidade falhou-nos

A banda de Manchester acaba de lançar o seu terceiro álbum de originais, A Brief Inquiry into Online Relationships (ABIIOR), uma ode à modernidade (e toda a sua perversão –  e como sobreviver nestes tempos), trilhando um caminho que passa por referências a Kanye West, Lil Peep, Donald Trump, às relações humanas nesta sociedade digital, à fugacidade do tempo e a dependência de drogas do vocalista Matty Healy como distração das péssimas notícias [ref. It’s Not Living (If It’s Not With You)], facto que o levou a escrever todo este trabalho.

Em entrevista à Pitchfork, Matty disseca todas as faixas de ABIIOR, explicando as suas influências na composição de um disco ”pós-moderno, antológico e deconstruído”, refletindo sobre a sua visão do mundo nos tempos que correm tendo um background musical que vai desde as típicas baladas acústicas, chegando aos standards clássicos de jazz, passando pelo punk dos anos 70/80 e culminando em rock puro de estádio.

 

 

 

 

 

You learn a couple things when you get to my age
Like friends don’t lie and it all tastes the same in the dark
When your vinyl and your coffee collection is a sign of the times
You’re getting spiritually enlightened at 29
So just give yourself a try.

Give Yourself A Try é o primeiro grande tema de ABIIOR. Musicalmente é clara a influência dos seus conterrâneos de Manchester, Joy Division, e um tributo ao seu vocalista Ian Curtis que se suicidou aos 23 anos. É uma clara mensagem de esperança para os millenials que enfrentam uma exagerada exposição a todos os assuntos mediáticos, sendo incapazes de criar um filtro que os proteja de uma idealização fantasiada:

[Give Yourself A Try] é sobre como, através da literatura ou da cultura pop, somos presenteados com uma idea de felicidade, de ser um adulto saudável e sentirmo-nos bem connosco mesmos. É uma ideia que raramente acontece. Gostava de falar comigo próprio aos 40 anos e refletir sobre o que conquistei e sobre como me sinto… Mas vou ser sempre a mesma pessoa neurótica que quer ser adulta.

— Matty Healy

 

 

 

 

Truth is only hearsay
We’re just left to decay
Modernity has failed us
And I’d love it if we made it.

Love It If We Made It é outro hino que desmascara os aspetos voláteis da modernidade, respondendo musicalmente com um som que transmite positividade e esperança no futuro.

As referências a temáticas políticas e a figuras controversas como Donald Trump ou Kanye West, tentam colocar em foco uma tendência de regressão que nos levará a tempos negros. Enquanto as circunstâncias não mudarem, a esperança é o pouco que resta. O título desta canção e a repetição da expressão Love It If We Made It é oferecer uma mensagem de esperança de luz ao fundo do túnel.

Não queria fazer uma canção de protesto só por fazer. Teria de ser objetiva. Porque nela não há nenhuma opinião, estou simplesmente a exaltar o quão furioso estou com toda a situação que está a acontecer.

— Matty Healy

 

 

 

And irony is okay, I suppose, culture is to blame
You try and mask your pain in the most postmodern way.

Sincerity is Scary é uma canção que versa sobre a tendência humana de esconder a própria vulnerabilidade através de comportamentos que tendem a criar confusão e conflitos nas relações com os outros. É mais um comentário social sobre a obsessão pós-moderna com a ironia e o cinisco, onde a sinceridade é muitas vezes ridicularizada.

Musicalmente, Sincerity is Scary contou com a colaboração do trompetista de jazz Roy Hargrove, que faleceu recentemente.

Foi a primeira vez que alguém que contribuiu tanto para a banda morreu. Algo morreu na música. Trabalhar com ele foi bastante intenso, sempre que ele entrava no estúdio ficávamos com medo. Foi o melhor músico com quem trabalhei, sem dúvida.

— Matty Healy.

 

And all I do is sit and think about you
If I knew what you’d do
Collapse my veins, wearing beautiful shoes
It’s not living if it’s not with you

It’s Not Living (If It’s Not With You) retrata a relação de Matty com as drogas. Escreveu esta canção dias após ter saído de um campo de reabilitação onde esteve internado 5 meses.

Criei um personagem para a narrativa desta canção [Danny] porque sempre tive a relutância de falar sobre isto. Nunca quis falar como era viciado em heroína durante 5 anos.

No entanto, não escreveria esta canção se não estivesse curado. Nunca pensei que o Kurt Cobain [Nirvana] quisesse romantizar o vício pelas drogas, porque ele publicamente a pessoa mais fixe do planeta e o grunge era crú, portanto ele estava só a expor a sua própria realidade, enquanto o Pete Doherty [Libertines] era uma personalidade diferente. Era disso que tinha medo – ser uma personagem que celebrasse esse vício. Tive sorte. Não perdi nada e é por causa disso que as pessoas tentam curar-se, porque perdem demasiado e não querem perder nada mais. Mas sim, tive sorte.

— Matty Healy.

 

If you can’t survive; just try.

A Brief Inquiry Into Online Relationships fecha com I Always Wanna Die (Sometimes), um hino de estádio repleto de influências da música britânica, saltando logo á cabeça o nome dos Radiohead e o seu tema High And Dry.

É um clássico. Sempre quis escrever isto. Não sei porque demorei tanto tempo.
Não é uma canção classicamente britpop; não é uma Bittersweet Simphony [The Verve] ou algo mais acústico dos Oasis. David Campell que trabalhara com os Goo Goo Dolls na composição da Iris, ajudou-nos na produção e pensei porque não teatralizar esta canção tornando-a numa espécie de I Don’t Wanna Miss a Thing [dos Aerosmith] britânica?

— Matty Healy.

O refrão culmina em ”Não serve de nada comprar sapatos de cimento, eu recuso-me.” Uma mensagem que viaja por todo o disco. Uma mensagem de sobrevivência e esperança; uma lição de como viver numa era marcada por conflito e mudança.

A Brief Inquiry Into Online Relationships é o primeiro trabalho da era Music For Cars. O segundo e final trabalho será lançado em maio de 2020 e continuará a narrativa começada neste disco.

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