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marina abramovic: the artist is present

A performance idealizada e produzida por Marina Abramović, artista e performer sérvia, denominada The Artist is Present, que esteve em exibição no Museu de Arte Moderna em Nova Iorque desde 14 de março de 2010 a 31 de maio do mesmo ano, partiu da crença da artista de que a extensão de uma performance, num espaço limitado e fechado (como o de um museu), sem qualquer guião de ação, serviria para alterar a noção de público enquanto mero espetador e figura distante da obra de arte, promovendo o seu engajamento em toda a experiência artística, desde a sua criação até à sua conceção final.

Marina Abramović nasceu em 1946 em Belgrado, Sérvia e desde a sua adolescência que contactou com a franja artística europeia.
Proveniente de uma família Ortodoxa, os seus pais faziam parte do exército jugoslavo que participou na Segunda Guerra Mundial. Durante o serviço militar, Abramović fora educada pelos seus avós, bastante religiosos e é nesta altura que é influenciada por rituais como ir à igreja, acender velas e receber visitas regulares da figura religiosa da localidade onde viviam.

Começou os seus estudos na Academia de Belas-Artes de Belgrado entre 1965 e 1970 e completou-os em Zagreb, na Croácia. Nos anos seguintes, até 1975, começou a executar as suas famosas primeiras cinco performances públicas denominadas Rhythm, onde tentou superar os limites físicos e mentais do seu corpo sujeitando-o à dor, vulnerabilidade e risco.

À medida que cimenta a sua carreira como performer individual nos anos 90, fora convidada para ser professora na Academia de Belas-Artes de Paris, na Universidade de Artes de Berlim e na Universidade de Belas-Artes de Hamburgo. Apesar de se ter tornado internacionalmente conhecida a partir do momento em que se muda para Nova Iorque, é com as aulas que lecionara nestas Universidades que começa a desenvolver a particularidade da sua performance enquanto imersiva ou participante.

A conceção de The Artist is Present sofreu várias mudanças ao longo da sua preparação. Um ano antes da sua realização, Abramovic decide alterá-la por força dos constrangimentos técnicos que a impediam de expor a sua arte da forma que inicialmente desejava.

A sua ideia original consistiu num prolongamento de outra apresentação que fizera em 2002 na Galeria Sean Kelly em Nova Iorque, denominada The House with an Ocean View. Aí, a artista não comera durante os 12 dias da exibição da performance, apresentou-se nua e urinou em público nalguns momentos. Ora, tratando-se de uma exibição desta feita num átrio de um museu e durante 3 meses, passar forme estaria fora de questão e também foram impostos limites no que toca à questão da nudez.

Sendo assim, em maio de 2009, Abramovic reúne-se com o seu curador Klaus Biesenbach e decide: «quero fazer um trabalho que me relacione mais com o público, que se concentre (…) na interação entre mim e a audiência.
Quero ter uma mesa simples, instalada no centro do átrio, com duas cadeiras. Vou sentar-me numa das cadeiras com um quadrado de luz, vinda do teto a separar-me do público. Qualquer pessoa vai ter a liberdade de se sentar do outro lado da mesa, na segunda cadeira, permanecendo pelo tempo que quiser, participando de forma plena e única na performance»,
invertendo assim o que anteriormente idealizara.

Durante cerca dos 3 meses em exibição, durante oito horas por dia, a artista conheceu mais de 1000 estranhos, muitos dos quais se emocionaram apenas com a contemplação mútua durante poucos minutos de artista-público, ou quiçá, entre seres humanos, desconhecidos, porém iguais, anónimos, mas unos.

O conceito de The Artist is Present é um género benigno do Teatro da Crueldade de Artaud. Baseia-se na participação voluntária do público, cujo objetivo é tirá-lo da sua confortável passividade social, para se tornar cocriador da obra de arte, relacionando-se assim com a artista e o objetivo da arte. Esta relação cimenta um espaço físico e psicológico onde eventualmente se espera que ocorra uma espécie de catarse mútua.

Na verdade, este fenómeno de purificação da alma através da arte foi planeado previamente por Marina Abramovic. Durante os 3 meses de exibição da performance, colaborava consigo um fotógrafo profissional, Marco Anelli, que se encarregava de documentar as reações de todas as 1545 pessoas que nela participaram. Sendo as emoções variadas, – uns participantes limitaram-se a contemplar a expressão da artista sem efetuar qualquer tipo de movimento, enquanto outros, por sua vez, choraram -, apresentavam um ponto comum: a sua expressão facial, bem como a sua linguagem corporal aparentava solidariedade perante a artista.

Em 2012, Anelli publicou o resultado da experiência numa exposição em Frankfurt, Alemanha, à parte de The Artist is Present.

O resultado foi bastante interessante. Apesar da performance versar sobre a relação e colaboração do espetador-artista, as fotografias apresentavam somente as reações do público participante naquela performance. Ora, quando o público desta exposição de Marco Anelli contacta com as reações dum outro público a uma outra experiência artística, dá-se um fenómeno de receção que Biesenbach denomina double gaze . O que este público experiencia é a experiência da própria Marina Abramovic quando os espetadores de The Artist is Present se sentam à sua frente, criando uma espécie de outra dimensão de receção artística em que a artista está ausente fisicamente, mas presente espiritualmente, criando outros universos de interpretações possíveis a cada espetador que contacta com as fotografias daquela performance.

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